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Afinal, qual é o valor normal da ferritina?
22 de maio de 2026

Anticoagulação e amamentação: como escolher?

Imagine a cena: você está lá, curtindo o bebê, se adaptando à nova rotina, tentando dormir quando dá, aprendendo a amamentar, e de repente surge uma dor na perna, um inchaço diferente ou uma falta de ar inesperada. Vem a avaliação médica e o diagnóstico assusta: trombose.

A primeira pergunta costuma vir quase junto com o medo: “E agora? Vou ter que parar de amamentar?”

Na maioria das vezes, não.

Ter uma trombose no pós-parto é uma situação séria e precisa de tratamento. Mas isso não significa, automaticamente, interromper a amamentação. Existem anticoagulantes compatíveis com esse período. O ponto principal é escolher uma medicação que trate bem a mãe, reduza o risco de complicações, como embolia pulmonar, e exponha o bebê ao menor risco possível.

Por que o risco de trombose aumenta no pós-parto?

Durante a gravidez e nas semanas após o parto, o corpo fica naturalmente mais propenso à coagulação. Isso acontece como uma forma de proteção contra sangramentos excessivos no parto. O problema é que essa mesma proteção aumenta o risco de formação de coágulos nas veias.

Quando a trombose acontece, o tratamento com anticoagulante é necessário. Esses medicamentos não “afinam” o sangue no sentido literal, mas reduzem a capacidade de formar ou aumentar coágulos.

A dúvida, então, passa a ser: qual anticoagulante usar enquanto a mulher está amamentando?

As opções mais tradicionais: heparina e varfarina

As principais recomendações ainda favorecem duas opções durante a amamentação: as heparinas, especialmente a heparina de baixo peso molecular, e a varfarina.

A heparina de baixo peso molecular, como a enoxaparina, é muito usada nesse contexto. Ela é aplicada por injeção subcutânea, geralmente uma ou duas vezes ao dia. Como é uma molécula grande e pouco absorvida pelo intestino do bebê, mesmo que quantidades mínimas cheguem ao leite, a chance de causar efeito anticoagulante no lactente é considerada muito baixa.

A principal desvantagem é prática: ninguém gosta de tomar injeção todos os dias, especialmente no pós-parto. Pode haver dor no local da aplicação, hematomas e desconforto. Ainda assim, do ponto de vista de segurança na amamentação, é uma das opções mais consolidadas.

A varfarina também é considerada compatível com a amamentação. Ela tem longa experiência de uso, baixa passagem relevante para o leite materno e não costuma produzir efeito anticoagulante no bebê quando usada adequadamente.

O principal ponto de atenção é que a varfarina exige controle frequente do RNI.

RNI significa Razão Normalizada Internacional. É um exame de sangue usado para medir o efeito da varfarina sobre a coagulação. Quando o RNI está abaixo do alvo, a anticoagulação pode estar insuficiente. Quando está acima, o risco de sangramento pode aumentar. Por isso, quem usa varfarina precisa fazer exames periódicos e ajustar a dose conforme orientação médica.

Em outras palavras: a heparina é segura, mas envolve injeções; a varfarina é segura, mas exige controle do RNI.

E os anticoagulantes orais diretos?

Nos últimos anos, os anticoagulantes orais diretos, conhecidos como DOACs, mudaram muito o tratamento da trombose fora da gestação e da amamentação. Esse grupo inclui rivaroxabana, apixabana, dabigatrana e edoxabana.

A grande vantagem é clara: são comprimidos, com dose fixa e sem necessidade rotineira de controle do RNI. Para uma mulher no pós-parto, cansada, amamentando e muitas vezes com dificuldade de ir a consultas e exames frequentes, isso parece muito atraente.

Mas aqui entra uma nuance importante: praticidade não é a mesma coisa que segurança comprovada.

As diretrizes clássicas ainda recomendam evitar DOACs durante a amamentação. A ASH, sigla em inglês para American Society of Hematology, ou Sociedade Americana de Hematologia, é uma das principais sociedades médicas internacionais da área. Suas recomendações sobre trombose na gestação e no pós-parto orientam que mulheres amamentando e com necessidade de anticoagulação evitem anticoagulantes orais diretos, preferindo opções como heparina, heparina de baixo peso molecular e varfarina.

Rivaroxabana: uma opção promissora, mas ainda não padrão

A rivaroxabana é talvez o DOAC com dados recentes mais interessantes nesse cenário.

Um estudo recente avaliou rivaroxabana em dose profilática em 20 mulheres lactantes e encontrou uma dose infantil relativa de 2,9%, abaixo do limite de 10% frequentemente usado como referência de baixa exposição pelo leite materno. O próprio estudo concluiu que a exposição neonatal provavelmente é baixa nesse contexto específico.

Isso é animador? Sim.

Muda a prática de forma definitiva? Ainda não.

Primeiro, porque estamos falando de um número pequeno de mulheres. Segundo, porque dose profilática não é necessariamente a mesma situação de dose terapêutica para tratar uma trombose estabelecida. Terceiro, porque baixa passagem para o leite é um dado importante, mas não substitui estudos clínicos maiores, com acompanhamento dos bebês por mais tempo.

Algumas fontes especializadas, como o Specialist Pharmacy Service do NHS, no Reino Unido, já reconhecem que rivaroxabana ou dabigatrana podem ser consideradas durante a amamentação em algumas situações, especialmente em bebês saudáveis e nascidos a termo. Ainda assim, essa mesma fonte mantém a varfarina como anticoagulante oral preferido durante a amamentação, justamente pela maior experiência acumulada.

Dabigatrana: pouca passagem para o leite, mas pouca experiência clínica

A dabigatrana também chama atenção porque parece ter passagem muito baixa para o leite materno. Do ponto de vista farmacológico, isso é interessante: se a medicação passa pouco para o leite e é pouco absorvida pelo bebê, o risco esperado tende a ser menor.

Mas, novamente, o problema não é apenas o que parece biologicamente provável. O problema é o tamanho da evidência disponível.

Quando falamos de amamentação, especialmente em recém-nascidos, prematuros ou bebês com algum problema clínico, a margem de segurança precisa ser maior. Portanto, apesar de a dabigatrana parecer uma opção promissora em teoria, ela ainda não substitui heparina ou varfarina como primeira escolha na maior parte das situações.

Apixabana: melhor evitar

Entre os DOACs, a apixabana é a que causa mais preocupação na amamentação.

Os dados disponíveis sugerem maior passagem para o leite materno, com dose infantil relativa acima do limite geralmente considerado aceitável. Por isso, quando se discute DOAC em lactação, a apixabana não costuma ser a opção preferida. Na prática, se a mulher está amamentando e precisa de anticoagulação, geralmente se procura outra alternativa.

Então, como escolher?

A escolha depende de vários fatores: gravidade da trombose, necessidade de dose terapêutica ou apenas profilática, idade do bebê, prematuridade, função renal da mãe, risco de sangramento, possibilidade de aplicar injeções, acesso ao controle do RNI e preferência da paciente.

De forma prática, a conversa costuma seguir esta lógica:

Se a prioridade é usar a opção com maior segurança estabelecida na amamentação, heparina de baixo peso molecular e varfarina continuam sendo as escolhas mais sólidas.

Se a paciente não consegue usar heparina, não tem acesso fácil ao controle do RNI, tem contraindicação ou grande dificuldade com as opções tradicionais, a discussão sobre rivaroxabana ou dabigatrana pode aparecer. Mas deve ser uma decisão individualizada, cuidadosa e compartilhada, reconhecendo que ainda existe pouca evidência clínica.

E se a opção for um DOAC, não dá para colocar todos no mesmo pacote. Rivaroxabana e dabigatrana parecem mais promissoras. Apixabana, por outro lado, deve ser evitada durante a amamentação com base nos dados atuais.

O mais importante: não interrompa a amamentação sozinha

Diante de uma trombose, é compreensível sentir medo. Medo do coágulo, medo do remédio, medo de prejudicar o bebê, medo de ter que parar de amamentar.

Mas a mensagem principal é: há caminhos seguros.

Na maioria das vezes, é possível tratar a trombose sem suspender a amamentação. O que não é seguro é ficar sem anticoagulação quando ela está indicada, ou trocar medicações por conta própria.

A mãe precisa estar bem para cuidar do bebê. Tratar adequadamente a trombose também faz parte desse cuidado.

Hoje, as evidências emergentes sobre rivaroxabana e dabigatrana são interessantes e provavelmente vão amadurecer essa conversa nos próximos anos. Mas, neste momento, as recomendações mais consolidadas ainda favorecem varfarina ou heparina de baixo peso molecular como opções preferenciais durante a amamentação.

Com informação clara, acompanhamento médico e uma decisão individualizada, é possível proteger a mãe, preservar a amamentação e atravessar esse período com mais segurança.

Estudos e referências

  1. Bruno AM, Job KM, Rower JE, et al. Prophylactic-Dose Rivaroxaban Transfer Into Human Milk. Obstetrics & Gynecology. 2026;147(5):e116-e119. https://doi.org/10.1097/AOG.0000000000006153
  2. Benicio FN, Leite LF, Costa de Almeida LF, et al. The Safety of Direct Oral Anticoagulants Use During Lactation: A Systematic Review. Thrombosis Research. 2026;262:109708. https://doi.org/10.1016/j.thromres.2026.109708
  3. Wiesen MH, Blaich C, Müller C, et al. The Direct Factor Xa Inhibitor Rivaroxaban Passes Into Human Breast Milk. Chest. 2016;150(1):e1-e4. https://doi.org/10.1016/j.chest.2016.01.021
  4. Butler AS, Cole S, Arya R, Patel JP. Considerations of Safety for Women Prescribed Apixaban or Rivaroxaban Who Breastfeed? A Physiologically Based Pharmacokinetic Analysis. Journal of Thrombosis and Haemostasis. 2025. https://doi.org/10.1016/j.jtha.2025.09.040
  5. Daei M, Khalili H, Heidari Z. Direct Oral Anticoagulant Safety During Breastfeeding: A Narrative Review. European Journal of Clinical Pharmacology. 2021;77(10):1465-1471. https://doi.org/10.1007/s00228-021-03154-5
  6. Bates SM, Rajasekhar A, Middeldorp S, et al. American Society of Hematology 2018 Guidelines for Management of Venous Thromboembolism: Venous Thromboembolism in the Context of Pregnancy. Blood Advances. 2018;2(22):3317-3359. https://doi.org/10.1182/bloodadvances.2018024802
  7. Specialist Pharmacy Service. Using oral anticoagulants during breastfeeding. Atualizado em 6 dez. 2024. https://www.sps.nhs.uk/articles/using-oral-anticoagulants-during-breastfeeding/
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